Foto-síntese


Era uma vez no Vietnam...

 

Quem é essa menina que corre em pânico para lugar nenhum? Quem, por trás de uma câmara, registrou para a posteridade essa imagem tocante? Poderia o fotógrafo conservar uma distância “profissional” diante desta cena, não se envolvendo emocionalmente nela? Que outras histórias haveria por trás desta imagem, as quais só seriam reveladas anos depois de o fotógrafo ter apertado o botão disparador?

 

 

A história desta foto já foi completa e amiudemente narrada em livros, revistas e documentários. Basta abrir o “site” do “Google” e digitar “Nick Ut” ou “Kim Phuc” e milhares de endereços sobre o tema vão ser listados, ao alcance de qualquer internauta ávido de detalhes. Não quero, com isso, diminuir a importância desta imagem. Nada no mundo abrandará a expressão de desespero e dor na face dessas crianças. Nada apagará a mensagem codificada numa rede de signos visuais, que remetem ao tema da “inocência ultrajada”. Mais que o choro e o pânico, chocam-nos os pés descalços e a nudez da criança. Ninguém nesta foto parece mais desprotegido, desamparado e humilhado do que esta menina. Ela é uma das personificações da brutalidade bélica contra a infância. Nas entrelinhas de seu protesto inaudível, podemos ler: “Tiraram tudo de mim”.

Vão aqui alguns dados formais sobre esta fotografia:

  1. A imagem foi feita em 1972, durante a Guerra do Vietnã, nos arredores da aldeia de Trang Bang.
  2. O fotógrafo, Nick Ut, trabalhava para a Associated Press e estava ali cobrindo um ataque com Napalm da aviação norte-americana. A foto lhe rendeu o Pulitzer, um reconhecimento profissional cobiçado por qualquer repórter fotográfico a serviço da imprensa estadunidense.
  3. A menina chama-se Phan Thi Kim Phuc. Naquele dia, ela perdeu vários parentes, mas conseguiu sobreviver milagrosamente graças à interferência pessoal de Nick Ut. Este, vendo a gravidade de seus ferimentos, largou as câmeras e a levou até o hospital mais acessível. Lá, dirigiu-se aos médicos e praticamente os obrigou a dar prioridade de atendimento a ela. Esta é uma das partes bonitas da história; a outra é que Nick Ut jamais mencionaria essa boa ação nos anos seguintes, mesmo sabendo que ele próprio poderia se tornar uma grande matéria para jornais e revistas.
  4. Kim Phuc passou mais de um ano no hospital e, depois de muitas cirurgias, conseguiu se recuperar das muitas queimaduras de primeiro grau que sofrera.
  5. Ela hoje mora no Canadá e se tornou embaixadora da Unesco. Em suas viagens, divulga ideais de paz e harmonia entre os povos.

Queria agora falar daquilo que não vemos nesta fototografia. Talvez por necessidade de concentrar o foco na agonia de Kim Phuc, a maior parte das cópias dessa imagen sofreu algum tipo de edição, mais precisamente um corte significativo no lado direito. Apenas alguns exemplares conservam o enquadramento original. Trata-se de uma mutilação a serviço de certos cânones estéticos. Esta que postei, por exemplo, não mostra um fotojornalista muito concentrado em rebobinar o seu filme, enquanto as crianças feridas passam correndo por ele. Ele caminha impassível, preocupado somente com seu trabalho. Fora da estrada, alguns militares também marcham indiferentes ao drama que se desenrola sob suas vistas.

A parte suprimida desta foto guarda um ensinamento: o pior legado das guerras não são as vidas que se perdem, mas o endurecimento da alma, essa narcose espiritual, a perda de sensibilidade às tragédias humanas. É isso, entre tantos motivos, que torna outras guerras possíveis.

 



Escrito por José Malveira às 19h42
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, LIMOEIRO DO NORTE, Homem, Portuguese, French, Livros, Cinema e vídeo
Histórico
  29/04/2007 a 05/05/2007
  15/04/2007 a 21/04/2007
  08/04/2007 a 14/04/2007
  01/04/2007 a 07/04/2007
  18/03/2007 a 24/03/2007


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog