Foto-síntese


A odisséia do James Caird

Quando o gelo polar resolve devorar um punhado de exploradores, há como escapar às suas armadilhas traiçoeiras? Seria possível desafiar a sorte nos extremos da Terra e sobreviver para contar a própria aventura?  Quem são esses homens da fotografia e quantos deles ainda estarão vivos no último parágrafo desta história?

Um pequeno barco rompe corajosamente as águas geladas. Na praia, acenos frenéticos desejam boa sorte àqueles arrojados tripulantes. O clima parece ser de festa, e a emoção embala a coreografia dos adeuses.

A fotografia, contudo, não deixa transparecer exatamente os sentimentos dos que ficaram. Vejam que um deles, o do centro, parece refratário à exultação reinante. Sua mão não se ergueu em sinal de despedida e, mesmo hoje, após mais de noventa anos, ainda posso adivinhar seus olhos perdidos no horizonte, a testa enrugada, um misto de terror e esperança atando-lhe a garganta num aflitivo nó.

Era o dia 23 de abril de 1916. Quase dois anos antes, esses homens haviam deixado a Inglaterra a bordo do Endurance, um rijo e bem-equipado bergantim adquirido por Sir Ernest Shackleton. Partiam para o que seria a última grande proeza da chamada Era Heróica da Exploração dos Pólos. Shackleton, um experiente e denodado aventureiro, pretendia atravessar a pé o continente antártico, um feito excepcional para seu tempo. Ele não concretizaria seus objetivos, no entanto seria o protagonista de uma das mais extraordinárias histórias de sobrevivência de que se tem notícia.

O fato é que, pouco antes de chegar à Antártida, o Endurance ficou preso numa banquisa e, em seguida, foi esmagado pelo gelo. Shackleton e seus homens juntaram todos os mantimentos disponíveis e rumaram, em três pequenos barcos, para a ilha Elefante, o lugar seguro mais próximo. Todavia, longe das rotas dos navios mercantes, não lhes restavam ali muitas esperanças de salvação. Isso obrigou Shackleton a tomar uma decisão dramática: ele e mais cinco homens tentariam alcançar as estações baleeiras da ilha Geórgia do Sul. Seria uma jornada de 1.300km em um pequeno e inadequado barco, o James Caird. Se ele falhasse, certamente todos esses homens da fotografia estariam condenados à morte. Nesse momento em que se despedem de seu comandante, esses alegres marinheiros também sabem disso. E como sabem!

O James Caird enfrentou, por mais de duas semanas, temporais e furacões. Os seis traquejados tripulantes conseguiram, nas condições de sobrevivência mais adversas, vencer montanhas de água que sepultaram, naqueles dias, navios de até quinhentas toneladas. Sedentos, famintos, queimados pelo frio, com os lábios rachados, chegaram a seu destino em 10 de maio. De lá, providenciaram o resgate de seus companheiros, vinte e dois no total. Mesmo tendo passado privações extenuantes, todos eles foram recuperados com vida.

As desventuras dessa expedição foram registradas por um admirável artista: o fotógrafo australiano Frank Hurley. A importância deste nome é tão grande, que ele vai merecer um “post” só para ele. O jeito é aguardar...



Escrito por José Malveira às 16h04
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