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Os ciganos de Koudelka

Um homem e uma mulher: em seus rostos eu possso ler, como num papiro antigo, lições de sofrimento e sabedoria. Cada vinco da pele enrugada conta uma história. São ciganos da antiga Checoslováquia — gente conhecida por ler mãos e adivinhar o futuro; porém, na foto, eles se deixam ler pelas lentes sensíveis de Josef Koudelka. O homem possui uma expressão altiva, está de pé, numa postura militar de sentido. Há um orgulho mal disfarçado pelas roupas pobres e mal-ajambradas. Ela está sentada, as mãos no regaço, um lenço na cabeça. Os olhos humildes e a curvatura dos ombros dão o toque de submissão a quem sabe estar ao lado de seu homem, o seu protetor. Não é um casal bonito, nem saberemos se o foi algum dia. Mas as matrizes humanas mais antigas não são exemplos perfeitos de estética. A perpetuação da raça se dá por meio de espécimes descarnados, tatuados de cicatrizes, acostumados naturalmente a despender grandes esforços economizando o máximo de energia. Povos como esses ciganos, perseguidos em todos os tempos, sobreviventes profissionais a todo o tipo de tragédia capaz de dizimar um povo. Entre uma onda e outra de genocídio, eles se divertem, casam-se, criam filhos, envelhecem e posam vitoriosos para uma fotografia.
Escrito por José Malveira às 11h09
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