
Ela se chamava Maria Christina Reux e atendia pelo pseudônimo de Nisette. Suponho tratar-se de um nome de guerra. Isso era comum no “bas-fond” parisiense, onde circulavam prostitutas, viciados em absinto, pintores decadentes, escritores sem dinheiro e vagabundos de todos os naipes. Mas não tiremos conclusões apressadas acerca de nossa modelo.
Antes de tudo, notemos a curvatura da perna, comprimindo o púbis saliente, como se quisesse selar a antecâmara de seu tesouro. Os quadris anchos denunciam uma vocação para a maternidade; e os seios têm o aspecto de que um dia se intumesceram de leite e depois murcharam. O rosto se encontra pudicamente à sombra, mas podemos adivinhar a linha graciosa do queixo e uns começos de lábios bem-desenhados. Já os olhos, estes ficaram cuidadosamente ocultos: ela nos entregou o corpo, não a luz da alma.
Foi uma foto bem difícil. Não por culpa de Nadar, esse gênio da “pré-história” da fotografia. Nem por culpa dela, que não pôs obstáculos para desnudar sua juventude. Os embaraços eram, sem dúvida, técnicos: emulsões lentas, escassa iluminação, longos tempos de exposição e, óbvio, de pose. Ela deve ter permanecido absolutamente estática por intermináveis trinta segundos. Para o público cobiçoso de uma musa nuinha em pêlo, ela está aí, imóvel, desde 1858.
Ficou-nos, enfim, essa imagem do pudor despido, esse gesto ambíguo de quem se mostra e, ao mesmo tempo, se esconde. Tal recato excita a nossa imaginação de “voyeur”... Como evitar, ainda hoje, uma sensação de alumbramento?!